Scentec: Internacionalizando o Brasil
No ano em que celebrou 35 anos de história, um dos mais tradicionais nomes do mercado de fragrâncias no Brasil, a Scentec, vive um momento de novas conquistas e planos para chegar a diversos cantos das Américas, fruto de escolhas de crescimento ousadas ao longo dos últimos 8 anos
Os números são grandiosos. Mais de 13,5 mil fórmulas comercializadas e 10 mil projetos apresentados anualmente, uma carteira com cerca de dois mil clientes e três unidades de produção. Esse é um retrato do que é a Scentec hoje. A casa de fragrâncias controlada pela família Labate nasceu como uma distribuidora da IFF, uma das grandes do mercado global de fragrâncias e onde Laercio Labate, fundador junto com Maria do Carmo Granha, fez carreira como executivo.
Hoje, a Scentec é, ela mesma, uma casa de fragrâncias multinacional, no stricto sensu do termo, com unidades de produção, atendimento e criação em São Paulo, Jaboatão dos Guararapes (PE) e Nova Jersey, nos Estados Unidos. A partir dessas três bases, a casa atende clientes de todo o Brasil, dos Estados Unidos e Canadá (países que assim como o Brasil são continentais e com muitas peculiaridades regionais), além de participar de projetos em outros continentes. "Este ano, serviremos 12 países diretamente por nossas unidades", comemora Rafael Labate, o CEO da Scentec.
As decisões que fizeram a casa atingir o patamar atual foram ousadas, inclusive a de começar a sua internacionalização pelos Estados Unidos, o maior e mais competitivo mercado de consumo do mundo. Mas quem conhece a família Labate sabe que a ousadia aqui não combina com aventura. Todos os passos foram bem pensados e estruturados para que a expansão pudesse agregar valor ao negócio, mas também para os clientes e colaboradores da empresa. Com as novas possibilidades de carreira abertas pela operação em diferentes países, a empresa mantém um forte intercâmbio entre profissionais das unidades, e é comum se dedicarem ao atendimento de clientes de mais de um país.
O processo de expansão começou em 2019, com a abertura da unidade da companhia em Pernambuco, que deu a ela acesso local ao mercado do Norte e Nordeste do Brasil. Foi um movimento bem-sucedido, que se consolidou em 2021, com a aquisição da Norscent (uma referência local). Mais importante do que o sucesso comercial da operação, foi a validação de escalabilidade do modelo de negócios. Foi quando os sócios começaram a estudar novas possibilidades de expansão. Agora, para fora do Brasil.
Ao estudar as oportunidades, os Labate entenderam que ao invés de trilhar o caminho mais óbvio, que seria o de ir para América Latina, seria melhor mirar primeiro para o Hemisfério Norte. Para Rafael, a entrada em qualquer mercado internacional demandaria da empresa uma série de investimentos, aprendizados doloridos e ajustes operacionais. Já que esse percurso seria inevitável, melhor então passar por ele tendo como alvo um mercado potencial maior.
Passados menos de quatro anos da sua inauguração, a Scentec já conta com mais de 100 clientes ativos nos EUA. Clientes em todas as categorias, incluindo spas e hotéis renomados, grifes de perfumaria de nicho e alto luxo.
A operação norte-americana é tocada diretamente por Rafael, que se mudou para os Estados Unidos para conduzir a empreitada. E se em pouco tempo a operação se provou uma escolha acertada, não quer dizer que a empresa não precisou de tempo para entender como se situar por ali, sem precisar anular as suas características, muitas delas moldadas pela brasilidade natural da empresa. “Os EUA são um mercado extremamente fragmentado, pragmático e funcional. Tudo é pactuado com detalhes e clareza, e leva tempo e consistência para haver abertura da parte deles”,conta o CEO.
Mas com algum tempo, Rafael acredita que a Scentec tem levado o "jeito brasileiro" de construir conexões para o mercado local, e dentro de certos limites, ele acredita que isso está sendo bem aceito por eles. “Antes de qualquer novo avanço, é necessário entregar e provar consistência. Ninguém te dá crédito só porque foi com a sua cara. Portanto, o processo de abertura de mercado leva mais tempo do que gostaríamos. Mas, com o tempo, temos percebido valor na abordagem que busca maior conexão, mais profundidade na relação. E isso tem gerado maior recorrência de projetos.”, conta. Estabelecidos no mercado norte-americano, para o próximo ano, aí sim, Rafael passa a olhar para a América Latina com a intenção de estabelecer uma base própria em algum dos principais países da região.
Além disso, na escolha de quais passos dar, no próximo ano a Scentec inaugura sua nova sede no Brasil, em Cajamar (SP), em um espaço cheio de história com o mercado de beleza: o antigo prédio da fabricante de embalagens Pouchet/Ipel/Qualipac. “Vamos transformar esse espaço, com sua bela arquitetura brutalista, em um grande hub sensorial, uma estrutura que sirva ao mercado com novos laboratórios, mais espaços e cabinas para testes sensoriais, espaços para palestras, eventos e um salão de beleza para a realização de testes com as consumidoras. O fato de as novas instalações estarem localizadas em um condomínio industrial e logístico onde trabalham milhares de pessoas, vai facilitar a realização desses testes. Se garantir uma boa infraestrutura é fundamental para sustentar as entregas e o trabalho do time, o CEO destaca que o grande diferencial da casa reside na sua cultura. Ao longo de mais de três décadas, a empresa focou em construir relacionamentos ágeis com o mercado, em especial com empreendedores e investidores, que precisavam de respostas rápidas aos seus processos de desenvolvimento de produtos. “À primeira vista, na internacionalização focamos no que levamos a novos mercados, mas a cada passo há também um engrandecimento do repertório do nosso time e dos processos como um todo. É impossível detalhar todas as evoluções vividas por nossas unidades brasileiras nos últimos anos como resultado desses movimentos. Organizacionalmente, trouxemos elementos de holocracia, metodologia inspirada na implantação da Zappos EUA, que entre diversas características, permite nos organizarmos em torno de temas, projetos e clientes de forma pouco hierárquica, mas orientada por papéis em cada grupo ou roda. Aqui chamamos esses grupos de Drops/Gotas, para lembrar que cada fração da nossa companhia, carrega em si, sua cultura, valores e missão. “Você não é uma gota no oceano, e sim todo o oceano em uma gota”, aprendizado que levo para cada aspecto da vida”, destaca Rafael. O comprometimento das equipes da Scentec ao longo de sua história, como aspectos centrais na construção da operação como ela é hoje. “Quando fizemos a primeira incursão fora do nosso território original, nós convidamos três profissionais da casa para liderar o processo, garantindo que os nossos preceitos e valores se fizessem presentes numa operação que seria muito nova e diferente para nós”, lembra Rafael. Ao mesmo tempo, a empresa sempre aceitou que não poderia chegar em um novo ambiente sem poder contar com o apoio de quem domina a cultura, os gostos e os modos das pessoas e empresas em regiões que eles não conheciam. “Acho que é a nossa disposição de aprender, somada a esse balanço entre a nossa gente e novas pessoas que vêm para trazer esses conhecimentos locais, que permitiu nos estabelecermos e construirmos um negócio de forma consistente, um passo de cada vez, em várias regiões diferentes”, reforça. A empresa mantém o programa "Nariz Residente", que promove o intercâmbio de perfumistas e scent designers entre os escritórios de São Paulo, Pernambuco e Nova Jersey. Além disso, possui um programa de contratação de refugiados, que participam ativamente do processo de avaliação de fragrâncias, trazendo olhar de quem viveu outras realidades em outros mercados.
De olho em fine fragrances
Historicamente reconhecida pela força no segmento de fragrâncias de consumo, em um movimento mais recente, mas que se alinha à estruturação feita nos últimos anos, a Scentec iniciou um forte movimento para ganhar destaque também no segmento de perfumaria fina. Um dos destaques nessa nova frente foi a chegada do executivo Marcello Blanco, como gestor de contas globais. Para Rafael, a contratação do profissional com vasta experiência na área, foi um dos catalisadores dessa mudança. Blanco agregou sua experiência no atendimento a grandes contas do segmento, para evoluir processos interno e trabalhar os rituais que o segmento exige. Outro reforço foi a contratação do scent designer Daniel Barros, um profundo conhecedor do mercado global de perfumaria de nicho. Estes se juntam a Rodolfo Melo, perfumista da Casa, e a um time que vive, respira e colabora com a construção do mercado de perfumaria de diversos países.
A ideia agora, diz Marcello, é somar as expertises e conhecimento de profissionais com vivência nas idiossincrasias do mundo da perfumaria, com a agilidade e a facilidade para envolver os clientes no processo criativo que a estrutura da Scentec oferece. A companhia conta com 10 narizes, como são chamados internamente os scent designers da casa. “Essa estrutura ágil e com talentos espalhados por diferentes países, nos permite apresentar com segurança um projeto que consumiria pelo menos três meses de trabalho em outras casas que atendem ao middle market, em 15 dias. E isso mesmo em projetos com a colaboração da IFF", comemora Marcello. Como parceira estratégica da casa norte-americana desde a sua fundação, a Scentec tem acesso a toda a paleta de moléculas e ingredientes da IFF para criar fragrâncias para os seus clientes. Isso inclui também o portfólio de naturais do Laboratoires Monique Remy, um grande diferencial em um momento no qual as marcas de perfumaria independente e de nicho buscam se diferenciar pela qualidade adicionando mais ingredientes naturais de altíssimo valor olfativo.
A evolução da parceria com a IFF O avanço da Scentec na área de fine fragrance também consolida um processo de evolução na relação da casa local com sua parceira de longa data. Um processo que remonta justamente ao início da expansão da empresa para as regiões Norte e Nordeste. “A Scentec, que nasceu distribuindo produtos da IFF e depois passou a usá-los como "coração" de suas criações, hoje vive uma "terceira onda”, já que a casa agora também tem a capacidade de criação olfativa internalizada além de equipes próprias de P&D, sensory, marketing regional e do próprio atendimento comercial especializado. Isso faz da Scentec, hoje, uma casa independente em termos operacionais da IFF, mas interdependente no desenvolvimento de produtos e cadeia de fornecimento. A relação entre as empresas nunca foi tão próxima e estratégica. E isso pode ser visto em projetos de fine fragrances que incluem a colaboração entre os criativos da Scentec, incluindo o perfumista da casa, Rodolfo Melo, e os perfumistas da IFF espalhados pelo mundo. A diretora comercial da Scentec, Cibele Berdasco, que atuou por mais de uma década na IFF, inclusive atendendo a Scentec, explica a mudança: "Scentec e IFF se conhecem muito bem, e o entendimento do que podem fazer juntas no mercado é claro para ambas as partes. Seguiremos evoluindo essa combinação de organizações, para continuamente entregar um serviço e um produto que só é possível com duas estruturas sólidas e complementares”, diz. Isso passa, entre outras coisas, pela parceria nos briefings de fine fragrance da Scentec.
Rafael acredita que a parceria oferece ganhos mútuos. “A IFF se beneficia ao alcançar o middle market em diversos mercados do mundo via Scentec, enquanto nós ganhamos acesso à força de mercado, à inteligência e a todas as capacidades e recursos técnicos da IFF”, conclui.