Coco: Uma visita inesquecível
Essa foi a primeira fragrância lançada pela famosa maison após a morte de Gabrielle Chanel, ocorrida em janeiro de 1971.
* Publicado originalmente na revista Atualidade Cosmética nº 125 (mai/jun 2012)
O ano de 1984 foi muito importante para a Chanel. Karl Lagerfeld reviveu a magia da grife, enquanto o perfumista Jacques Polge e o diretor artístico Jacques Helleu criaram Coco, a primeira fragrância lançada pela famosa maison após a morte de Gabrielle Chanel, ocorrida em janeiro de 1971. Criado como uma homenagem à estilista e como uma resposta ao lançamento de Opium, de Yves Saint Laurent, Coco foi também o primeiro perfume criado por Jacques Polge para a Perfumes Chanel, onde ingressou em 1978.
E o desafio não poderia ser maior para o perfumista. Afinal, o Chanel Nº 19, lançado em 1971, tinha sido o último perfume escolhido por Coco Chanel. Mas, quase como mágica, a inspiração para criar o Coco surgiu de uma inusitada visita que Polge fez ao apartamento de Mademoiselle, localizado abaixo de seu ateliê de costura, na Rua Cambon, no 1º arrondissement de Paris.
“Fiquei fascinado por aquele lugar. Os três cômodos não haviam sido tocados desde que ela se fora, e a decoração me surpreendeu, totalmente o oposto daquilo que eu imaginava que era o seu espírito. Foi tão diferente que comecei a entender a relação que existia entre a sua costura e os perfumes. Eu detectei facilmente uma similaridade de suas joias com o estilo barroco, mas, até então, eu via seus perfumes como florais abstratos. E estes me pareceram totalmente diferentes do estilo e da atmosfera que eu senti naquele apartamento”, relembra Polge.
Mas foi aí que o perfumista se deu conta que os perfumes de origem da Maison Chanel – Cuir de Russie (1924), Bois des Iles (1926) e Sycomore (1930) – eram tão barrocos quanto o apartamento da estilista. “Daí, me pareceu mais do que evidente que o próximo perfume da casa deveria reviver aquela veia barroca. Então, em Coco, traduzi a memória de Mademoiselle Chanel e as mesclei com as minhas próprias percepções da nossa época em um perfume”, resume o perfumista, acrescentando que a fragrância, até hoje, é uma de suas favoritas.
Assim, se o Chanel Nº 5 e o Nº 19 são florais abstratos, Coco pode ser definido como um “anti-floral”. Embora sua formulação contenha diversas flores, elas não são utilizadas na fragrância por seu aroma, mas por sua riqueza, em linha, aliás, com o estilo e a assinatura de Chanel.
Seu acorde oriental especiado é construído em torno das notas de sândalo cremoso, do frescor do jasmim da Índia e da riqueza de rosas turcas. O pêssego e a mimosa iluminam as notas de saída de Coco, enquanto que os “dentes” de cravo-da-índia, a cascarília do caribe e a flor de laranjeira acentuam o coração rosado da fragrância e dão um brilho todo especial às notas de fundo de labdanum, sândalo, fava tonka, couro e opopanax. Tudo isso, acondicionado no frasco clássico do Nº 5, criado em 1921, com as cores preta e ouro, reafirmando a homenagem à Mademoiselle Chanel.
O queridinho da AméricaA palavra “flanker” soa como ruído aos aficionados mais radicais de fragrâncias. Mas tente dizer isso aos consumidores, que, em 2011, gastaram de US$ 450 milhões em perfumes, de acordo com o NPD, um crescimento de 27% em relação aos resultados de 2010. E, sem dúvida alguma, boa parte dessa cifra foi gasta na compra do Coco Mademoiselle, cujo lançamento pioneiro em 2001, inaugurou a categoria dos flankers.
Coco Mademoiselle nasceu do clássico Coco, como resultado de um pedido da Perfumes Chanel ao criador da fragrância original, Jacques Polge. O briefing, sem dúvida, foi objetivo, mas nada simples: criar um cheiro de Chanel que pudesse ser olfativamente mais aceito na América. “Para mim, Coco Mademoiselle é um novo perfume”, diz Polge, que abomina o termo “flanker”. Nela, tudo que era excessivo na versão original desapareceu. E parece que deu certo: Coco Mademoiselle foi o perfume Nº 1 em vendas na América nos últimos três anos, também segundo o NPD, permanecendo mais forte do que nunca no ranking mais de uma década após o seu lançamento.