Em harmonia com o mundo das coisas
Criado há mais de 100 anos, L’Heure Bleue, de Guerlain, continua a seduzir suas admiradoras.
* Publicado originalmente na revista Atualidade Cosmética nº 118 (mar/abr 2011)
Num final de tarde de verão de 1911, o perfumista Jacques Guerlain se deteve durante um passeio às margens do Sena com seu filho pequeno. Enquanto a clara luminosidade do dia ia se esmaecendo lentamente em direção à “hora azul” do crepúsculo, os ruídos de Paris se diminuíam e as flores sedutoramente se fechavam, enchendo o ar com seu perfume. Desse momento calmo nasceu a inspiração para a criação, um ano depois, de L’Heure Bleue, um das mais adoráveis fragrâncias florais-orientais da história recente da perfumaria mundial.
O perfume remete ao cheiro de uma flor fresca, muito feminina e delicada, mas capaz de se destacar numa sala repleta de pessoas, um atributo considerado entre as criações de Jacques Guerlain. Sua “receita” inclui bergamota, cravo, anis, flor de laranjeira, heliotrópio, rosa búlgara, tuberosa, íris, baunilha e almíscar. Ele surgiu apenas sete anos antes da estreia de Mitsouko (1919), outro sucesso da perfumaria, muitas vezes comparado ao Nº 5 de Chanel.
Vale lembrar que L’Heure Bleue foi, também, o primeiro perfume de Guerlain a usar aldeídos em sua composição. Contudo, eles foram agregados ao perfume simplesmente para amplificar ligeiramente as notas naturais – estão presentes em pequeníssimas quantidades na fórmula, imperceptíveis aos narizes menos treinados.
Ternura infinita
O frasco Belle Époque de L’Heure Bleue se adapta incrivelmente bem ao romantismo da fragrância. Guerlain gostou tanto do visual, que também acondicionou na mesma embalagem suas fragrâncias Fol Arôme (1912) e Mitsouko.
O vidro foi um dos primeiros a serem criados pelo designer Raymond Guerlain, e o primeiro no estilo Art Nouveau dentro da Maison Guerlain, evidenciado pelos ombros curvilíneos e sensuais, inspirados na natureza, a fim de caracterizar movimento.
O projeto original do frasco foi entregue para produção da Baccarat, e chegou a aparecer no catálogo da cristaleira com o nome de “chapéu de policial”, em função de sua tampa lembrar o acessório utilizado na cabeça pelos “gendarmes” da época. No entanto, mais recentemente, a Baccarat reviu esse apelido, dizendo que não se trata de evocação a um chapéu, mas, sim, a um coração inspirado no romantismo da Belle Époque.
“Chapéus” à parte, L’Heure Bleue continua a seduzir suas admiradoras. Jacques Guerlain o criou para exprimir a atmosfera de um momento. Mais tarde em sua vida, ele escreveria essas palavras para reviver a emoção daquele momento às margens do Sena, ao lado de seu filho:
“O sol se pôs, mas a noite ainda não caiu. É a hora incerta. No interior da luminosidade do mais profundo azul, o farfalhar das folhas e o marulhar do rio Sena parecem expressar um amor, um carinho, uma ternura infinita. O homem está, de repente, em harmonia com o mundo das coisas, em um instante de tempo: o tempo para um perfume.” Assim é L’Heure Bleue.