O provérbio africano “ É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, nos diz de nossa responsabilidade no futuro que oferecemos para as infâncias, no plural. Quando uma criança é entregue à sorte de seus próprios desejos, isso significa que adultos estão se ausentando.
O boom da série “Adolescência” — que conta a história de Jamie, um menino de 13 anos, que vive em uma pequena cidade do Reino Unido e é acusado do assassinato de sua colega de escola, Katie —, está aí para dar um indício assombroso de como podemos estar conduzindo nossas crianças muitas vezes por um caminho sem volta.
A série, riquíssima do ponto de vista psicanalítico, oferece um vasto campo para análises sob diversos prismas. Diante disso, optei por um recorte que se volta especificamentepara o ambiente como possibilidade de oferecer, ou não, ao sujeito uma sustentação suficientemente boa, conforme propõe Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista britânico.
O conceito de ambiente suficientemente bom, central em sua teoria, refere-se à capacidade do ambiente de prover cuidados, estabilidade e uma função continente — receber, conter, transformar e integrar os estados emocionais intensos e caóticos do bebê —, permitindo que ele desenvolva um senso de self coeso e capaz de lidar com a realidade, permitindo que o indivíduo suporte e elabore suas angústias sem recorrer a decisões drásticas.
Nas cenas ambientadas na escola, diante da tragédia da morte de Katie, evidencia-se a limitação dos adultos do ambiente escolar em exercer uma função continente, tão necessária à elaboração psíquica dos adolescentes. Já nas cenas familiares, observa-se a presença de pais que se mostram ausentes, alienados em suas próprias rotinas, com uma mãe que mal aparece e um pai em quem Jamie, em vários momentos, busca a introdução de um limite que não existe. Na ausência de uma figura adulta que pudesse ajudá-lo a conter e simbolizar suas angústias, Jamie se refugia nos amigos e nos perigos do acesso sem supervisão, das redes sociais.
Na ânsia de sentir-se aceito e valorizado diante da comunidade escolar, o adolescente tenta aproximar-se de Katie, personagem que se torna simbolicamente, um objeto investido de esperança, mas também de ameaça à sua fragilidade. Não tendo recursos psíquicos para sustentar a ambivalência dessa relação, sua confusão interna transborda para o real: Jamie age o conflito, uma vez que não consegue mantê-lo no nível simbólico, e acaba por passar ao ato assassinando Katie. Logo, é possível observar uma falha do ambiente, que não lhe oferece a sustentação necessária para conter e elaborar tal angústia. O homicídio, nesse sentido, configura-se como o ponto extremo da falha ambiental, um colapso do que Winnicott chama de espaço potencial de simbolização - em que a criança explora a relação entre o mundo subjetivo e o mundo objetivo, utilizando objetos e atividades transicionais para criar significados e dar sentido à sua experiência.
Durante toda a série, Jamie nega a autoria do crime, mesmo diante da prova irrefutável do vídeo. Suas falas “Não fui eu”, “Não sou um monstro”, não são meras negativas dos fatos, elas expressam, sobretudo, a fragmentação de seu self. Ele atua e não se reconhece no ato.
E o que isso tem a ver com o mercado de beleza? O mercado de beleza não é neutro diante da ofertas de produtos formulados e testados em peles adultas, que são consumidos por crianças e adolescentes.
O próprio fato de que muitas consultorias e veículos de comunicação tratam o consumo de produtos de beleza pela Geração Alpha como uma grande oportunidade de negócios, ou como um movimento capaz de revolucionar o futuro do mercado é um indício de que não estamos enxergando essa enorme red flag que se coloca bem a nossa frente.
A indústria é um dos principais difusores de padrões de beleza, e ainda que amplie as possibilidades de inclusão, não minimizará o impacto de ter que se enquadrar. Muitas marcas esperam lucrar ao vender vaidade precoce. Porém, a pressão estética camuflada de brincadeira de criança, pode produzir considerável sofrimento, visto que a adolescência é uma fase de intensas transformações físicas, psíquicas, cognitivas e sociais, que marcam a transição da infância para a vida adulta.
As mudanças provocadas pela puberdade, exigem uma nova adaptação à imagem corporal. No campo psíquico, o adolescente busca construir sua identidade, enfrentando conflitos emocionais e desejando autonomia. Cognitivamente, desenvolve a capacidade de pensar de forma abstrata e crítica, questionando valores e crenças. Socialmente, o grupo de amigos torna-se essencial, e os vínculos familiares são repensados.
Todas essas mudanças tornam a adolescência um período complexo, mas fundamental para a formação do sujeito e nós como o ambiente facilitador dessa transição, como nos implicamos quando encurtamos a infância e seduzimos meninas e meninos com itens de consumo que não deveriam fazer parte de suas vidas em tão tenra idade? Qual nosso papel enquanto sociedade na promoção da saúde mental de crianças e adolescentes? Estamos acabando com a infância? A que preço?