02/06/2026 às 16h50min - Atualizada em 02/06/2026 às 16h50min

O doce gozo

Quando o mercado Perfuma o Indizivel

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Ale Cusma

Ale Cusma

Atualidade Cosmética no Divã

Adobe Stock

A tendência beauty gourmand tem conquistado espaço no mercado brasileiro, transformando fragrâncias e cosméticos em experiências sensoriais que evocam sobremesas, frutas caramelizadas, doces, chocolates e as mais variadas e inusitadas combinações. Mais do que aroma, esses produtos oferecem prazer quase gustativo, transformando o cuidado diário em um ritual de autocuidado que desperta os sentidos.

Mais do que uma análise de produtos, a tendência gourmand propõe uma reflexão sobre o desejo contemporâneo: O que há por trás  desse sucesso com sabor de infância?

Relatórios globais indicaram o avanço expressivo desse tipo de claim, mostrando que as tendências sensoriais relacionadas ao universo dos sabores na indústria cosmética não apenas sobrevivem, mas se consolidam, desde que acompanhadas de inovação olfativa, diversidade de formatos e curadoria cuidadosa. A beleza gourmand portanto, revela uma transformação no mercado de cosméticos: ele não vende apenas produtos, mas a ilusão de repetirmos aquela primeira experiência de satisfação que deixou marca mnêmica. Nos faz  crer que esse desejo mais profundo encontrará a completude.  Doce engano…

Um movimento que evidencia como o consumo moderno de beleza é cada vez mais guiado pela satisfação de prazer, não só pela estética.

Entre cremes de chocolate, loções de baunilha e perfumes que evocam a infância, como marshmallow ou jujuba, o mercado da beleza contemporânea parece ter descoberto uma fórmula mágica para captar o mais profundo desejo, a tendência beauty gourmand não vende apenas produtos, mas experiências sensoriais, afetivas, que falam diretamente ao corpo e à memória. 

Mas será  que o que  está por trás desse sucesso é um simples gosto por doces, ou trata-se de uma operação sofisticada do desejo?

O mercado, astuto, observa as faltas, as nostalgias e os excessos do sujeito. Ele denuncia aquilo que escapa à linguagem — o gozo feminino, o jouir que não se reduz a um significante — e  tenta capturá-lo em aroma, textura e cor. Um óleo corporal que promete “cheiro de doce de infância” não é apenas fragrância: é a materialização de um retorno ao prazer primordial, ao corpo que goza antes da castração simbólica, antes que o desejo fosse filtrado pela lei e pelo social.

Será que esse excesso indizível, inominável, encontra finalmente um suporte  na cremosidade de um creme, na suavidade de uma loção, no candy color de uma embalagem? O mercado também deseja o que todos ao longo do tempo desejaram, capturar o inefável do gozo feminino, domesticar o prazer, numa  versão higienizada, segura e socialmente aceitável, do que antes era íntimo e potencialmente subversivo.

Essa operação tem consequências ambíguas. Por um lado, há a fetichização do objeto: o perfume, o creme ou o batom, condensam parte do prazer e da nostalgia, tornando o gozo quase “tocável”, reconhecível. Por outro, a alienação se manifesta na repetição  do consumo, que busca de frasco em frasco, a satisfação que jamais se completa, nunca fechando o  circuito. O gozo prometido se dissipa, surge o próximo lançamento, o novo aroma, a textura mais intensa, e o desejo retorna, renovado.

Além disso, há um recorte de gênero inescapável. A maioria dos produtos gourmand é direcionada a um público específico, explorando a fantasia cultural da docilidade feminina, um perigo com  roupagem de virtude.  

O mercado não vende apenas o produto, mas a promessa de completude, de gozo controlado, seguro e esteticamente agradável. Entre um aroma e outro, entre uma textura e outra, o sujeito continua tentando saborear o doce impossível da infância.

Lacan nos lembra que o gozo feminino escapa à linguagem, é um “mais-além do falo”.  Entre liberdade e captura, a mulher é convidada a experimentar o prazer do próprio corpo, mas dentro da lógica do consumo: uma celebração que é, ao mesmo tempo, espetáculo e mercadoria.

Enfim, o sucesso da tendência beauty gourmand revela muito mais do que tendências de mercado: mostra como o capitalismo sabe ler o desejo, capturar o excesso e transformá-lo em experiência sensorial.

Mas, será possível saber o que quer uma mulher?

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